Le Du : uma imersão na Tailândia do Chef Ton

Quando pensamos na Tailândia, logo imaginamos uma explosão de cores, aromas e sabores que transbordam nas ruas, mercados e templos – uma festa sensorial que se desdobra a cada esquina. Felizmente, também o fine dining tem seguido essa mesma linha, abandonando aos poucos os cânones europeus em prol de uma identidade local e mais autêntica, onde os sabores tailandeses emergem como protagonistas principais.

Um bom exemplo dessa afirmação cultural é o Le Du, que sob a batuta do chef  Thitid “Ton” Tassanakajohn tem conquistado os mais diversos palcos internacionais e provocado o mundo a redescobrir a Tailândia. Quando o visitamos há dez anos (ver), Ton ainda buscava o equilíbrio entre técnicas ocidentais e a intensidade dos ingredientes locais; hoje, a experiência é uma imersão pura e completa no terroir tailandês, interpretado com maestria e sem filtros. O nome Le Du (apesar do sotaque francês, o nome deriva da palavra tailandesa para “temporada”) é uma promessa de sazonalidade e produto. E é exatamente isso que o restaurante entrega: uma viagem profunda e sensorial pelos sabores e texturas do país, revisitada com técnica moderna e um olhar profundamente enraizado.

Essa dedicação à essência tailandesa encontrou o seu reconhecimento em 2023, quando o Le Du alcançou o 1º lugar no Asia’s 50 Best Restaurants – uma conquista que revela o amadurecimento do projeto e a solidez da proposta de Ton.

Depois de apreciada a recém-decorada sala do espaço, onde o teto é um labirinto de tubos de vidro (não consigo imaginar o desespero de quem os limpa!), somos acompanhados à mesa onde o menu ilustrado nos aguça a curiosidade.

A apresentação de muitos dos ingredientes que iriamos provar ao longo do almoço
A apresentação de muitos dos ingredientes que iriamos provar ao longo do almoço

A refeição começa com uma sequência de snacks. Primeiro, uma aveludada mousse de peixe fermentado com barracuda fumado, seguida de uma tartelete de cogumelos e caril com lima kaffir, uma combinação com belas notas de acidez. Depois, uma reinterpretação visual e divertida de uma sopa de noodles instantânea, e por fim, um dumpling de porco num caldo reconfortante – uma entrada quente e acolhedora que antecipa o rigor técnico e a intuição gastronómica do chef.

 

Cobia e Coco
Cobia e Coco

Com o apetite aguçado, avançamos para o primeiro prato que foi simultaneamente um dos mais surpreendentes: Cobia e Coco. O peixe cru chega com lâminas de coco fresco, citrinos e um sorvete de vinagre de coco que traz acidez e frescura ao nível de um ceviche, mas com uma assinatura totalmente tailandesa. Para acompanhar, um Champagne Vallée do Domaine Les Monts Fournois, feito predominantemente de pinot noir, que reflete bem a elegância, estrutura e complexidade da região de Mareuil sur Aÿ e se mostrou a companhia perfeita para a elegância e a estrutura do prato.

Camarão “Banana” - Beterraba e caril azedo tailandês
Camarão “Banana” – Beterraba e caril azedo tailandês

Seguimos para o Camarão “Banana” com Beterraba e Caril Azedo Tailandês. Inspirado na tradicional sopa Kaeng som, Ton recria este clássico num prato frio onde o caldo azedo se entrelaça com a doçura do camarão e a profundidade terrosa da beterraba. A harmonização, um Grewacke Sauvignon Blanc 2023, apesar de não ser uma casta e região que eu aprecie particularmente, acrescenta notas tropicais e cítricas que enriquecem a experiência.

Lula - mexilhão e tutano
Lula – mexilhão e tutano

Lula, Mexilhão e Tutano é servido em dois atos. Primeiro, a lula, cozida na sua tinta com tutano de wagyu, pickle de mexilhão e um crocante de arroz e “krill” (uma espécie de micro camarões) – uma explosão de texturas e frescura com um contraste delicado de gordura. No segundo ato, um caldo reconfortante de lula seca e peixe do rio com tamarindo, onde um croquete de lula e porco finaliza o prato. Aqui, o pairing com o Intergalatic de Rennersistas, um orange wine austríaco fácil de beber e levemente efervescente, trouxe equilíbrio e frescura.

Garoupa - lotus e peixe salgado
Garoupa – lotus e peixe salgado

Na sequência, a Garoupa com Raíz de Lotus e Peixe Salgado, um prato onde o peixe foi cozido na perfeição, revelando uma harmonia de sabores surpreendente ao paladar ocidental. A harmonização, um Chardonnay Riversdale Estate 2021 da Tasmânia, trouxe o toque final necessário, acrescentando complexidade e acidez.

Camarão gigante da Malásia - Arroz, pasta de camarão, compota de barriga de porco
Camarão gigante da Malásia – Arroz, pasta de camarão, compota de barriga de porco

O Prato de assinatura do Le Du e porventura de Ton, Camarão Gigante da Malásia com Arroz, Pasta de Camarão e Compota de Barriga de Porco – um extra que pode ser adicionado ao menu.  É um dos mais surpreendentes para o palato menos treinado nos sabores orientais, muito por culpa do brilhante arroz orgânico, e dos elementos que o acompanham, como a compota de barriga de porco. Um claro exemplo, onde por vezes, o acompanhamento rouba o palco ao actor principal.

Thai Wagyu - melancia e chili
Thai Wagyu – melancia e chili

Para prato de carne, o menu oferece-nos um Wagyu Tailandês servido com Melancia e Chili – uma combinação de texturas e notas de picância que equilibra a gordura da carne. Porventura o mais conservador dos momentos, mas que nem por isso se fez passar despercebido. Harmonizado com um Syrah 2019 oriundo de uma vinha orgânica e de um ano bem quente do produtor Brash Higgins, que resulta num vinho mais estruturado e de taninos bem vincados. O prato encerra a secção de salgados com robustez e complexidade.

A pré sobremesa foi um refrestance sorvete de manjericão tailandês
Mousse de Chocolate Branco - gelado de coco tostado, bétele, líchias, crumble de amendoim
Mousse de Chocolate Branco – gelado de coco tostado, bétele, líchias, crumble de amendoim

A reta final da refeição começa com um sorvete refrescante de manjericão tailandês, que prepara o paladar para a Mousse de Chocolate Branco com Coco Tostado, Betele, Líchias e Crumble de Amendoim. Com toques franceses sutis na técnica, o doce surpreende pela fusão de sabores bem ajustada e sem o excesso de açúcar que normalmente encontramos nestas combinações de ingredientes, encerrando a experiência com leveza e elegância. O pairing com o Château Pierre-Bise Les Rouannières, um colheita tardia 100% Chenin, trouxe o toque mineral perfeito para equilibrar a doçura.

Para os que não bebem álcool,  o Le Du dispõe de uma harmonização com uma cuidada seleção de chás e infusões.

Com o restaurante reservado para um almoço de grupo, o serviço decorreu a um ritmo agradável, permitindo mais interações e momentos de partilha sobre cada prato.

chef Thitid “Ton” Tassanakajohn
chef Thitid “Ton” Tassanakajohn

Considerações Finais
Se em 2014 Ton surpreendia por levar sabores tailandeses para uma cozinha mais ocidental, em 2024 a sua proposta deu uma volta de 360º, assumindo cada vez mais a sua raíz, alicerçando a sua cozinha cada vez mais em pratos e ingredientes tailandeses.

Esta experiência faz-nos questionar como a gastronomia de um país pode ser reinventada sem perder a sua essência, sem atalhos ou com meras “desconstruções”. A cada prato, Ton e a sua equipa revelam o potencial da gastronomia tailandesa, ousando reinterpretá-la num encontro de tradição e vanguarda, mas sem nunca perderem a sua essência.

O menu degustação, com seu jogo de texturas, temperaturas e contrastes, capta o espírito do país e transforma-o em algo novo, acessível e, ao mesmo tempo, inesperado. O foco de Ton em ingredientes e produtores locais, assim como a escolha de manter o restaurante num patamar de preço equilibrado para o que habitualmente encontramos, refletem o olhar atento de um chef que vê na sua cozinha, mais do que uma fusão de sabores e ingredientes – ele vê a sua voz e a de uma Tailândia que emerge, forte e segura no cenário gastronómico mundial, a voz de um país que se afirma, sem precisar de ser traduzido!

Preço: a partir de 110€ (sem vinhos e taxas)
399/3 Silom 7 Alley, Silom, Bang Rak – Bangkok

Fotos: Flavors & Senses
Textos: João Oliveira
Versão Inglês
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