Konstantin Filippou: O mesmo sítio, onze anos depois

Chegamos à Dominikanerbastei, uma rua quase deserta junto ao canal, pouco depois do meio-dia. O tempo parece não ter mudado muito a zona, mas hoje, volvidos mais de dez anos, o sol brilha e a companhia vem acrescida de uma criança. Lá dentro, o sol baixo e brilhante desenha quadrados de luz no chão da sala. A Cíntia sorri enquanto tira o casaco e recorda com felicidade que tudo está no mesmo sítio. A Francisca olha em redor, séria, a estudar o lugar. Por detrás da janela que separa a sala da cozinha, vejo-o de relance: com a sua vestimenta preta de apanágio, a afastar o cabelo da cara. Konstantin Filippou não está à porta a receber. Está onde sempre quis estar, no passe.

Encaminhados à mesa, somos recebidos com Krug Grande Cuvée, ou não estivéssemos nós numa das suas ambassades. O terceiro copo, para a Francisca, está cheio de um espumante sem álcool, no mesmo cristal. É uma daquelas micro-coreografias que separam serviço de hospitalidade. Brindamos os três enquanto os seus olhos brilham com a importância do gesto.

Estivemos aqui pela última vez em 2015. O restaurante tinha então uma estrela e Konstantin era o enfant terrible da cozinha austríaca. Na altura, escrevi que a segunda estrela viria depressa, mas foi apenas em 2018 que se deu a consagração. Os cinco toques do Gault&Millau chegaram em 2020 e os 99 pontos da À la Carte e da Falstaff são deste ano. Onze anos depois, regresso. O que aqui se come hoje é a versão mais madura, mais económica em gestos, e mais confiante do idioma de Filippou. A mesma cozinha, depurada por uma década e por um ano difícil.

Onze Anos Depois

Viena tem hoje uma densidade de fine dining que rivaliza com as principais capitais europeias. A Dominikanerbastei é uma rua discreta no 1.º distrito, a três quarteirões do Steirereck e a outros tantos do Silvio Nickol — os três restaurantes formam um triângulo invisível de estrelas Michelin que foi definindo a cidade contemporânea.

Entre novidades e clássicos, Konstantin manteve o traço da sua sala. Paredes escuras, mesas vestidas de preto, o vidro disfarçadamente aberto para a cozinha onde a brigada trabalha com a precisão de quem sabe que está a ser observada. De dia, no entanto, o efeito é distinto. As janelas largas inundam o espaço de luz natural e o restaurante perde aquela qualidade nocturna, levemente teatral, que tinha em 2015. Ganha leveza. Ganha, sobretudo, a possibilidade de um almoço sem a coreografia mais agitada do jantar.

Ao nosso lado, um homem de negócios intercala a refeição com a leitura do jornal diário, num ritual que aproxima o restaurante estrelado do conforto de uma cantina quase doméstica.

O Ano em Que a Casa Foi Posta à Prova

Visitamos o restaurante um ano depois do mais difícil capítulo da história desta casa. Em Fevereiro de 2025, ex-colaboradores expuseram à Wiener Zeitung acusações sobre a origem de ingredientes premium, uma cultura de cozinha violenta e o uso de espaços auxiliares não licenciados. Konstantin e Manuela, sua mulher, responderam publicamente, admitindo erros pontuais, contestando o quadro geral, reconhecendo um clima de pressão sempre associado aos restaurantes estrelados e prometendo correcções estruturais.

Pão e manteiga de cebola caramelizada

Numa altura em que as denúncias contra chefs e restaurantes de alta cozinha se multiplicam, e em que a indústria se vai moldando a outras exigências, o Konstantin Filippou fê-lo também. Não há queixa formal conhecida. Não há condenação. E quando muitos esperavam — ou desejavam — que o guia vermelho tomasse uma medida, o Filippou manteve em 2025 e em 2026 as duas estrelas, o Gault&Millau manteve os 19 pontos e os cinco toques, e outros tantos prémios seguiram-lhes o exemplo. Com este texto não quero absolver nem condenar, apenas descrever a nossa experiência à mesa.

Camarão vermelho, vichyssoise de ervilha e fundo de pato

A Abertura

Camarão vermelho, vichyssoise de ervilha, fundo de pato e chip de filo. O prato chega com a forma de uma pequena flor, que nos deixa antever o camarão no seu interior enquanto nos prepara para um exercício de equilíbrio entre quatro registos que noutra cozinha facilmente colidiriam. A doçura mineral do camarão. A frescura quase herbácea da ervilha. O fundo de pato, escuro, com aquela untuosidade que assina o registo austríaco. O filo, crocante, que arruma a textura que faltava. Elegante, curto e preciso. Um abre-aspas que diz, pausadamente, em que cozinha estamos.

Truta do Ártico, chaudfroid e beterraba

A truta do ártico veio a seguir, em jeito de chaudfroid contemporâneo. A bergamota deu o golpe de acidez e leveza por cima do peixe; as chips de beterraba uma leve crocância e doçura. Mais um prato de abertura que envolve o palato em busca de uma sensação muito específica.

O pão é escuro, robusto, com aroma a cereal tostado, e chega acompanhado de manteiga de cebola caramelizada – a mesma combinação que descrevi em 2015 – e do azeite Mama Konstantina, o azeite grego que o chef produz e comercializa através do seu terceiro restaurante, de nome homónimo, que homenageia as suas origens gregas. Verde, herbáceo, levemente picante na garganta. A dualidade funciona: a manteiga seduz, o azeite perfuma. É difícil contornar o simples quando é bem feito.

Ostra Gillardeau, pera e alcachofra

A ostra Gillardeau aparece disfarçada sob pétalas de pera, alcachofra, e um creme inglês construído a partir de caldo de peixe e da própria água da ostra. O molusco desaparece e reaparece no palato. Quase não está ali, e está. Terra. Mar. O umami que define a cozinha de Filippou desde o início do seu caminho a solo.

Sempre o Umami

A sardinha foi uma das surpresas do almoço. Aparece com rábano, macerado numa rémoulade de mexilhão. Conjunto improvável – sardinha, rémoulade de marisco, rábano ao estilo da Baviera – que funciona pela acidez e equilíbrio. A acidez do rábano corta a oleosidade do peixe, o mexilhão liga, o conjunto chega com uma maresia fina e densamente salgada ao mesmo tempo.

Sardinha, rémoulade de mexilhão e rábano

A Cíntia disse: “isto é a versão moderna de uma boa conserva de sardinhas sobre a mesa.” Penso que foi o maior elogio do almoço. O chef, no seu livro, descreve a forma como sempre cozinhou sardinhas em casa, simplesmente em azeite, dispostas em camadas, no fogão e depois no forno, escorridas e comidas com as mãos. Aqui há uma tradução polida desse gesto, onde a casa e a herança familiar não desaparecem.

Limão de Amalfi, caviar e manteiga noisette

Depois foi a vez do limão de Amalfi gelado, com caviar negro, arroz fermentado e manteiga noisette. Uma espuma fina e sedutora, com o frio e a acidez do limão a ganhar untuosidade e salinidade pela manteiga e pelo caviar. As notas de arroz fermentado trazem aromas e sabor além da cremosidade, numa ponte entre o citrino e a salmoura. Este é o Konstantin de 2026: menos elementos e texturas do que o Filippou de 2015, mais focado, mais maduro.

Lagostim, milho e bisque

O lagostim chega com milho e bisque, finalizado à mesa com a junção dos molhos. É o prato com a estética menos identificável com o registo da casa. O marisco vem quase escondido sob o molho, e a beleza é discreta. O lagostim cede com aquela resistência mínima que assina o tempo justo no calor, textura tensa, doçura intacta. O milho traz uma camada redonda. A bisque puxa o conjunto para o ofício clássico, e as notas de manteiga noisette voltam a sobressair. Um prato que invoca de novo o sexto sabor e onde se intui uma gramática umami que vem da Ásia mas não se anuncia.

Truta, enguia e albufera

Truta salmonada da região, maturada por alguns dias e servida com enguia, cenoura salgada e molho Albufera. Aqui Filippou volta ao registo intenso, profundo, fumado, da sua cozinha mais densa. A truta no ponto exacto. A enguia traz a memória da brasa. As cenouras adoçam e reforçam a caramelização da enguia. O molho Albufera, clássico atribuído a Carême – caldo de aves reduzido, roux, manteiga, natas, pimento – é uma daquelas decisões que tipicamente não fariam sentido com peixe. Aqui, felizmente, fazem. Um prato onde está tudo a acontecer e onde tudo faz, estranhamente, sentido.

Trufa negra

O Veado e a Herança

A sela de veado é um dos dois pratos principais do menu. Quem ler o ethos oficial do restaurante, que anuncia uma carta exclusivamente de peixe e marisco, encontra aqui uma pequena viagem fora da carta. A carne está, e está nos termos próprios de Filippou: os brotos de folha de vinha e as uvas chamam a Grécia paternal – Kassandra, Tessalónica, o mar Egeu visitado em criança nos verões. A trufa preta vem dos campos espanhóis. O marisco é caramelizado até criar um toffee de sabor a mar. A caça serve-se rosada-rubra ao centro, com a discreta fumarência que o prato exigia, e combina-se inesperadamente com a terra da trufa e da vinha e o mar dos crustáceos. Não é o prato mais visual ou criativamente arrebatador do menu, mas talvez seja o mais autobiográfico e simultaneamente delicioso.

Sela de veado, trufa e toffee de marisco

O Fim do Círculo

A primeira sobremesa é uma flor de abacaxi com coco e merengue, finalizada como um baked alaska, com o álcool a arder à frente da Francisca, que estala uma palmada de aprovação. Esteticamente irrepreensível, com a doçura calibrada e o jogo de texturas perfeito. Não quer ser mais do que aquilo que entrega: um interlúdio ácido e tropical, antes do fecho.

Abacaxi, coco e merengue

E o fecho está dividido em três actos – a halva, numa elegante tartelete com amêndoa, o sabugueiro que traz frescura herbácea e floral, e um chocolate em nota crocante, com um gelado a baixar a temperatura do trio. A halva é um doce de raiz persa que se enraizou no Mediterrâneo oriental, sobretudo na Grécia e na Turquia, com base em tahini, sêmola ou amêndoa, e que Filippou usa como mais uma marca identitária das suas raízes. Em quase todos os menus dele há, algures, este puxão genealógico. Este terminou exactamente dessa forma.

Halva

A Sala e os Vinhos

A própria geometria da sala diz, sem discurso, que se vai ali para comer. É um restaurante per se, sem truques nem arquimanhas de “experiência sensorial”. O próprio chef diz, e cumpre: “this is a place to eat. An elegant place to eat, but just a place to eat. You come here to feel good. You don’t come here to be overwhelmed by us.” Não

há a sua presença excessiva na sala, nem truques de magia trazidos pelos cozinheiros, que vamos vendo atarefados enquanto o chef olha pelas brechas de vidro, com o ar de quem sabe o que vê e procura.

Sabugueiro

O serviço e os pairings foram conduzidos por Leo Schneemann, responsável de sala, com a precisão necessária a uma carta que continua a privilegiar pequenos produtores, biodinâmica, naturais, sem nunca abdicar dos clássicos. Começámos no Krug, evidentemente, dado o estatuto de embaixador da casa. O François Chidaine Les Bournais 2022 acompanhou a ostra, com a mineralidade nua que se pedia. Andreas Tscheppe, um dos mais excitantes produtores de vinhos naturais austríacos, surge com o seu Schwalbenschwanz, um Goldmuskateller de notas tropicais com uma acidez vibrante a ligar muito bem com a untuosidade da sardinha. O Christophe Mignon ADN de Meunier Rosé, aparentemente improvável, desfez-se sobre o limão Amalfi com uma elegância que merece nota à parte. Um Trummer Ehrenhausen Morillon 2023, fresco e tenso. O Tschida Himmel auf Erden Rosé 2024 foi a escolha para a enguia e a truta, numa prova de que o rosé pode ser muito mais do que um vinho leve e frutado, mostrando toda a excelência do trabalho de Christian Tschida. O Bourgogne Pinot Noir 2021 do Marquis d’Angerville trouxe algum classicismo borgonhês com o veado. E o Tinhof Beerenauslese de Neuburger, sobremaduração austríaca com notas de casca de laranja, mel e frutos de caroço, para fechar o capítulo doce. Cada par foi um pequeno trabalho de pensamento. Nenhum estava ali por defeito.

Chocolate crocante

A sala estava com poucas mesas ocupadas, característico do almoço, e o serviço fluiu sem nunca se tornar excessivo. Tivemos uma criança à mesa, fizemos o menu inteiro, e em nenhum momento o ritmo se quebrou. A equipa adaptou-se à Francisca como se fosse uma hóspede regular, o que, num restaurante de duas estrelas, numa cidade clássica como Viena, é uma pequena vitória de hospitalidade que não passa despercebida.

Konstantin Filippou

Uma Nota Final

Onze anos depois do meu primeiro jantar aqui, encontro um Filippou tecnicamente mais maduro, esteticamente mais sóbrio, e narrativamente mais simples. A busca pelo umami – que descrevi em 2015 como o eixo da sua cozinha – mantém-se como assinatura. Os sabores são mais delicados, as construções menos performativas, e a confiança, certamente, maior. O ano que passou foi público e foi duro. A casa não fingiu que nada se passou, mas também não se desfez. Soube olhar em frente e seguir o seu caminho. Os pratos continuam a seguir uma direcção, e a sala continua a saber receber. O gesto de tirar um terceiro copo idêntico, para uma criança de cinco anos poder brindar, diz mais sobre o que é hospitalidade do que muita coisa escrita sobre o assunto.

O chef defende, no seu próprio livro, que cozinha primeiro para si próprio – “I trust my own palate” – porque só assim sabe o que pode pedir do cliente. Saio com a sensação de que continua a fazê-lo.

A tarde de Janeiro tinha-se fechado, o sol já se ia, e Viena tinha aquele frio seco que dá vontade de andar a pé. Pensei que onze anos é muito tempo para voltar onde fomos felizes. Pensei que a Francisca será um dia moldada pela memória deste almoço, como Konstantin foi pelas suas férias em Halkidiki.

Morada: Dominikanerbastei 17, 1010 Wien, Áustria
Reservas: +43 1 51 22 229 | restaurant@konstantinfilippou.com
Horário: Almoço e jantar — segunda e de quinta a sábado, 12h00–15h00 e 18h30–23h30. Encerra domingo, terça e quarta.
Preço: A partir de 265€ (sem vinhos).
Distinções: 2 Estrelas Michelin; 5 toques / 19 pontos Gault&Millau 2026; 99 pontos À la Carte; 99 pontos Falstaff; Chef do Ano Gault&Millau 2016. Imperdíveis: Camarão vermelho com vichyssoise de ervilha e fundo de pato; Sardinha com rémoulade de mexilhão e rábano da Baviera; Limão de Amalfi gelado com caviar negro, arroz fermentado e manteiga noisette; Truta salmonada maturada com enguia e molho Albufera;
Outros projectos do chef: O boufés — wine bar e bistro de vinhos naturais, anexo ao restaurante. Mama Konstantina — taverna grega em Döbling, Viena, com homenagem moderna às raízes paternais do chef.
Nos arredores: Stephansdom (~5 min a pé); Donaukanal (em frente); MAK – Museu de Artes Aplicadas (~8 min a pé); Albertina (~10 min a pé); Café Central (~15 min a pé); Naschmarkt, o mais conhecido mercado a céu aberto de Viena (~20 min a pé ou 5 min de U-Bahn).

Fotos: Flavors & Senses
Textos: João Oliveira
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