Atlantis, The Palm: Quando o mito encontra a realidade

O Paradoxo da Realidade

Durante anos mantive uma distância prudente em relação ao Dubai. Via-o como um teatro de excessos, postal de arranha-céus cintilantes e cenários fabricados. Mas as cidades, como as pessoas, têm o poder de nos desmentir. Em 2019, uma semana bastou para descobrir uma metrópole vibrante, onde tradição e modernidade dançam uma coreografia inesperada.

Seis anos depois regressei – em família. Desta vez não havia hesitações: o Atlantis, The Palm, esse ícone cor-de-rosa que há quase duas décadas povoa o imaginário dos viajantes como miragem moderna da cidade perdida.

A viagem de avião foi, por si só, um capítulo à parte – drama noturno que só quem viaja com crianças compreenderá. Mas o desconforto dissipou-se rápido. Quarenta minutos após deixarmos o aeroporto, conduzidos em silêncio por um motorista do hotel, surgiu diante de nós a imagem saída de um sonho: o Atlantis erguia-se na Palm Jumeirah como palácio das fábulas que pretende recriar, miragem refletida no Golfo. Prova de que, por vezes, o artificial consegue ser mais real que o real.

A Arquitetura do Encantamento

Inaugurado em 2008, o Atlantis foi o primeiro resort a nascer na Palm Jumeirah — ele próprio um exercício de transformar o impossível em geografia. Projetado pelo estúdio Wimberly, Tong & Goo, ergue-se como materialização moderna do mito da Atlântida, numa fusão de referências árabes e fantasia contemporânea.

A fachada coral e rosa ergue-se em duas torres gémeas ligadas por um arco central, que funciona visualmente como portal para outro mundo.

No átrio, a Francisca deixou escapar o suspiro que eu própria sentia: “Uau, mamã… parece que estamos no filme da Pequena Sereia!”

Era isso: colunas evocando palácios submersos, luz filtrada pelo mar e, no centro, a escultura hipnótica de Dale Chihuly, vórtice de vidro soprado em milhares de peças. Um teatro à chegada que suspende qualquer descrença.

O check-in foi célere e caloroso. Uma funcionária recebeu-nos em português, lembrando-nos de que o verdadeiro luxo reside na atenção humana, não na escala.

Habitar o Impossível

Com 1500 quartos e suítes, o Atlantis é um universo em si. Brancos, turquesas e corais compõem interiores amplos; varandas abertas ao mar convidam à contemplação. No nosso Imperial Club Room com vista para o oceano, o luxo revelou-se em gestos discretos: pastelaria deixada em silêncio, fruta delicada, brinquedos para a Francisca, toalhas transformadas em esculturas efémeras.

Para quem busca o lendário, as suítes Poseidon e Neptune abrem janelas do chão ao teto para a Ambassador Lagoon, onde tubarões e raias deslizam num bailado hipnótico. A Bridge Suite, suspensa entre as torres, oferece vistas de 360 graus e serviço de mordomo exclusivo – apartamento no céu onde o mar e o Dubai se estendem como uma maquete visionária.

Por falar em quartos com vista.

Reservar com o selo “Imperial Club” acrescenta lounge privado, pequeno-almoço dedicado, check-in exclusivo, clube de exploradores para os mais novos e até uma praia reservada.

Algumas das surpresas que foram surgindo no quardo ao longo da nossa estadia
Algumas das surpresas que foram surgindo no quardo ao longo da nossa estadia

Dormir aqui é acordar num mundo onde o mar invade os sonhos – o impossível tornado quotidiano pelo engenho humano.

Uma Sinfonia Gastronómica

Se a arquitetura é espetáculo e exuberância, a gastronomia é o ato mais arrebatador.

O Atlantis, The Palm é uma cidade culinária dentro da cidade. Entre buffets, o Saffron impressiona pelo ritmo vibrante e oferta asiática, enquanto o Kaleidoscope se revela mais familiar mas igualmente concorrido.

O contraste fez-nos valorizar ainda mais o Imperial Club Lounge: silêncio, terraço para o pôr do sol e um serviço afinado. Aqui, o Pequeno-almoço tornou-se liturgia de calma; e ao fim da tarde, aperitivos generosos libertavam-nos da pressão de organizar jantares formais em família.

O Pequeno-amoço no Imperial Club

À noite, o clímax: o FZN by Björn Frantzén, estreado em 2024 e já triestrelado no guia Michelin. Apenas 27 lugares, precisão nórdica com calor árabe – uma das melhores experiências do meu ano. O Studio Frantzén trouxe a mesma assinatura em registo descontraído, ambiente contemporâneo, pratos memoráveis. Entre cocktails e sushi, revisitámos o Nobu, clássico eterno.

A vista do Nobu

Ficaram por explorar mesas lendárias como o Ossiano. o Hakkasan, o Bread Street Kitchen ou o libanês Ayamna. No fundo, aqui cada refeição é um destino, onde não se colecionam restaurantes, mas memórias.

A vista noturna do Arabian Terrace
A vista noturna do Arabian Terrace

Universos Paralelos

Cada hóspede habita a sua própria versão da fantasia.

O resort é uma cosmópolis em miniatura, onde percorrer distâncias faz parte da experiência: a cada esquina, recantos inesperados, terraços, aquários colossais. O Aquaventure Waterpark atrai multidões; nós escolhemos a contemplação.

 

 

 

O Lost Chambers Aquarium foi uma revelação: ruínas submersas povoadas por 65 mil criaturas marinhas, tempo que abranda ao ritmo das raias. Noutra tarde, uma cabana privada junto à praia revelou-se bálsamo: sombra, cocktails, serviço invisível mas presente. Para perspetiva aérea, o balão que sobe a 300 metros mostra a geometria perfeita da Palm.

Famílias encontram no Atlantis Kids Club e no Club Rush para adolescentes, verdadeiros paraísos coreografados. Aqui, tudo tem uma versão mais luxuosa disponível.

A praia privada para os membros do Imperial Club

A Coreografia da Hospitalidade

O que distingue o Atlantis não é a escala – essa impõe-se de imediato. É a capacidade de conjugar espetáculo com intimidade, grandiosidade com calor humano.

A coreografia repete-se em pequenos gestos: check-in na língua materna, sorrisos genuínos, brinquedos inesperados no quarto, gelados distribuídos à beira da piscina. Gestos que revelam hospitalidade: antecipar desejos, criar surpresa, nunca deixar que o monumental ofusque o mundano.

A Atlântida Possível

Ao fim de uma semana no Atlantis, The Palm, fica a reflexão sobre o que significa criar paraísos artificiais no século XXI. Não é apenas mais um resort de luxo – é exercício de materializar sonhos coletivos, de dar forma arquitetónica a mitos ancestrais.

O Dubai, uma cidade erguida em tempo recorde, funciona como laboratório do futuro, testando limites do possível. O Atlantis insere-se nessa narrativa como prova de que o artificial, quando executado com mestria, alcança autenticidade própria. A Atlântida mítica perdeu-se nas águas do tempo. Esta, cor-de-rosa e impossível, ergue-se sobre o Golfo Pérsico oferecendo não a cidade perdida dos filósofos gregos, mas algo talvez mais precioso: a possibilidade breve de habitar os nossos próprios sonhos de magnificência.

No olhar da Francisca, maravilhada com sereias e fábulas, reside a lição final: o verdadeiro luxo é reaprender a capacidade de nos deslumbrarmos.

MORADA — Atlantis, The Palm, Crescent Road, Palm Jumeirah – Dubai
RESERVAS+971 4 426 0000
PREÇOS — A partir de €250
IMPERDÍVEL — FZN Restaurant, Ossiano, The Lost Chambers, Club de Praia Privados
CURIOSIDADES —  Instalado na ponta da The Palm, o hotel tem sido um dos maiores símbolos arquitectónicos do Dubais.
FACILIDADES — SPA, Eventos, Restaurantes de Autor, Piscinas, Ginásio, Bares, Lojas, Aquapark, Concierge, Aquário, Praia, Beach Club

Fotos: Flavors & Senses
Textos: Cíntia Oliveira
Versão Inglês
No Comments Yet

Leave a Reply

Your email address will not be published.