Mandarin Oriental Viena: uma nova visão de Viena

Riemergasse é uma rua estreita e sem vaidade, a poucos minutos da Ópera mas fora do teatro do Ring. Chegámos ao Mandarin Oriental numa tarde de janeiro, com sol, mas com a neve ainda agarrada aos parapeitos e a cidade em surdina. Do lado de fora é severo: fachada fechada, colunas, janelas altas em série, a pedra com que Viena, no início do século XX, quis dar forma à ideia de justiça. Durante mais de cem anos, o edifício serviu a cidade como tribunal.

Tínhamos deixado, minutos antes, a Viena mais comum: a dos veludos, dos retratos e das festas que soube sobreviver ao império. Aqui a proposta era outra, e com uma premissa interessante: chegámos semanas depois de o hotel abrir, e tudo ainda cheirava a novo.
Esta é a primeira unidade da Mandarin Oriental na Áustria, e não veio sozinha: quase ao mesmo tempo abriu o Rosewood, uns quarteirões adiante. Durante décadas, o luxo vienense teve uma forma quase única, imperial e herdada. O que o Mandarin traz de novo vem de outra latitude: uma hospitalidade de raiz asiática, feita de antecipação e contenção, que mede o serviço pelo detalhe mais do que pela cerimónia, no fundo, vem mostrar à cidade que inventou a corte como se recebe sem ela.

Não é coincidência: nos últimos anos, Viena deixou de ser só a capital dos cafés e da valsa para entrar no mapa das grandes marcas de luxo e hospitalidade, e estas duas aberturas quase simultâneas são um sinal bem claro disso.

De tribunal a hotel

O edifício de Art Nouveau é de Alfred Keller, concluído em 1908, e serviu durante gerações como tribunal: casos criminais, divórcios, disputas de família decididos dentro destas paredes. Hoje atravessa-se o átrio a saber disso, e custa a conciliar com a ideia de um hotel.

A conversão coube ao estúdio Goddard Littlefair, e o acerto do projeto está no que não se demoliu. Mantiveram a escadaria monumental e os tetos originais, e preservaram a implantação do edifício. O antigo pátio central, agora coberto por uma elegante clarabóia, tornou-se o coração social do hotel, o vazio em torno do qual tudo se organiza. Passa-se por ali várias vezes ao dia, com ou sem intenção, e é sempre o mesmo movimento: os olhos sobem à luz que desce da clarabóia e o ruído dos espaços à volta chega abafado, como se o pátio impusesse a toda a gente o seu próprio ritmo. Por baixo, há uma camada ainda mais antiga: durante a escavação do spa apareceram restos humanos, ligados a um passado monástico e à Viena romana, a Vindobona. A obra parou, chamaram-se arqueólogos, e a herança passou a contar com freiras, soldados romanos, juízes e, agora, hóspedes: o mesmo chão ocupado de forma diferente em séculos diferentes. É disto que vive a História!

Nada disto é encenado ou vivido como museu. A arte espalha-se pelo hotel sem cerimónia ou destaque, nos halls junto aos elevadores e dentro dos próprios quartos, e a curadoria de Minda Dowling faz um gesto deliberado: catorze das vinte e cinco artistas são mulheres, numa leitura contemporânea que elimina a galeria de retratos imperiais.

É este o gesto que todos os envolvidos no projeto quiseram destacar: pegar num edifício do poder antigo e reescrevê-lo noutra língua!

A chegada, e um serviço com duas velocidades

Do momento em que saímos do carro ao check-in, tudo correu com uma agilidade rara. Fizeram-nos algumas perguntas sobre gostos, em particular os da Francisca, e essas perguntas voltaram horas depois sob outra forma: uma chave de quarto só para ela, personalizada com o seu nome e o seu doce preferido, um gelado!

O mesmo se confirmou onde menos se repara. O housekeeping foi dos melhores que alguma vez experienciámos, tanto na limpeza do dia como na preparação da noite: a roupa e os nossos equipamentos arrumados na perfeição, o cheiro do quarto sempre impecável, pormenores que não esperava encontrar tão cedo e que trazem, obviamente, o selo da marca. Noutros pontos, notava-se o contrário, como no pequeno-almoço e no serviço do restaurante, com alguns detalhes ainda em afinação, nada que surpreenda num hotel com poucas semanas de funcionamento e ainda a assentar rotinas.

A suite

Ficámos numa Deluxe Suite, ainda com o espaço a estrear-se. A paleta é secessionista sem ser temática: tons de ostra, um dourado discreto, o azul que percorre o hotel inteiro. Não há propriamente vista, as janelas amplas dão para a rua, mas a luz entra bem e conversa com os tons claros.

O novo chegava tanto pelo tato como pelo cheiro: os lençóis, o toque da cama, o ar do quarto e, pela rua estreita não subia movimento nenhum, um silêncio raro para quem está no primeiro distrito. Sala muito confortável, ótima cama, domótica q.b. e uma casa de banho funcional, com a sempre bem-vinda sanita japonesa, que eu amo!

À chegada esperava-nos fruta, bolo, uma carta personalizada e um chocolate com a forma do logótipo da Mandarin Oriental. Pelo dourado, a Francisca tomou-o por uma peça de decoração, e a cara dela ao perceber que era chocolate não teve preço!


Um “food court” de autor

Toda a oferta gastronómica vive sob a clarabóia, com a assinatura Atelier 7, e aqui devo assumir uma estranheza inicial. O conceito desconcerta à primeira vista: uma planta aberta, quase um food court, em que as várias propostas, do fine dining Le Sept à brasserie, do café ao izakaya e bar, se abrem umas para as outras sem barreiras físicas, apesar dos registos e serviços distintos. Custa a entender no primeiro olhar. Depois percebe-se que é o mesmo gesto do resto do hotel: trocar as salas separadas e douradas da cerimónia imperial por uma só ágora de luz. Não sei se gosto, honestamente, mas diria que é só mesmo uma questão de estranheza inicial!

Almoçámos (na verdade, eu não almocei nada, a não ser um caldo de carne que estava divinal, uma vez que a minha gastroenterite se manteve por toda a nossa estadia em Viena!) na brasserie, um almoço casual muito bem executado.

Um ótimo pão brioche folhado para abrir. Depois um tártaro que juntava carne e atum, com gema curada, sourdough tostado e um gel de cogumelos, improvável e bem resolvido. A seguir, um terra-mar generoso, o Steak Frites “Oscar”, com lombo, caranguejo real, molho holandês e cogumelos. As sobremesas, em estilo fake fruit à Cédric Grolet, saíram da pastelaria do Atelier 7 e cumpriram o que se pede: doces sem excesso, com a acidez certa. Não admira o cuidado: a pastelaria tem pedigree, com Christian Grübler vindo do Steirereck, o que numa cidade obcecada por viennoiserie diz tudo.

No topo do conceito está o Le Sept. Não jantámos lá, mas é o restaurante que dá o tom do hotel: peixe e marisco, de leitura franco-asiática, numa cidade sem mar. O chef Thomas Seifried, que assina o conjunto da oferta gastronómica do hotel, passou pela escola de Eric Ripert, nas Caimão e em Nova Iorque, e isso lê-se na ambição da carta.

Um spa escavado no tempo

O spa fica no subsolo, e descer até à piscina é passar por baixo de todas as camadas do edifício: a comodidade mais recente sobre o chão mais antigo da cidade. Enquanto o João e a Francisca se instalavam na piscina, ela em delírio com o robe à sua medida e os chinelos fofos que lhe deram, aproveitei uma massagem. A sala era irrepreensível, a execução muito boa. Foi o momento a solo de que precisava para tentar recuperar dos dias de doença que tinham tomado conta de mim nesta viagem.

Uma Viena sem corte

O Mandarin Oriental não tem a intenção de ser um novo Sacher ou outro hotel de matriz imperial. Pega num edifício da velha autoridade e domestica-o, num luxo de contenção, para um público que procura Viena sem a sua nostalgia. Até o azul que domina os quartos, estranho ao princípio contra os tons claros, acaba por fazer sentido: notas de mar numa cidade que nunca o teve.

Na manhã da partida, a Francisca demorou-se a olhar o pátio enquanto tomávamos o pequeno-almoço, aquele vazio de luz por onde a cidade entra sem hora marcada. Perguntava se poderia voltar ao hotel, já que lhe tinham dado uma chave só dela e tinha adorado a piscina. Dissemos que sim, porque há poucas coisas melhores do que reviver uma boa memória.

Houve um tempo em que se vinha a este edifício por obrigação, à espera de uma sentença. Hoje entra-se por vontade, e o que custa é a saída!

Para quem é

Para quem quer Viena sem o peso do registo imperial e prefere um luxo contido e residencial ao cerimonial. Casais, viajantes de design e famílias – recebe crianças com um cuidado genuíno – e quem procura na cidade uma hospitalidade mais próxima do serviço asiático do que da corte.

Gostámos

  • A antecipação no serviço e o cuidado com a Francisca
  • Housekeeping
  • A luz e o silêncio na Suite
  • Os tratamentos do Spa, a piscina e o ginásio
  • A mesa da Brasserie

A melhorar

  • O conceito de planta aberta, que desorienta à primeira
  • O serviço de sala ainda em afinação

Morada: Riemergasse 7, 1010 Viena – Áustria
Reservas: +43 189 068 880
Preços: A partir de €680
História: Edifício Art Nouveau desenhado por Alfred Keller e concluído em 1908, durante décadas foi o tribunal comercial e criminal da Innere Stadt. Restaurado pelo estúdio de interiores Goddard Littlefair e reaberto como o primeiro hotel da Mandarin Oriental na Áustria — soft opening a 20 de outubro de 2025, estreia oficial da marca a 1 de dezembro de 2025. Distinguido como Austria’s Best Opening pela Falstaff e presente na It List 2026 da Travel + Leisure e na Hot List 2026 da Condé Nast Traveller.
Instalações: 138 quartos e suites (86 quartos e 52 suites, incluindo três Mandarin Signature Suites e uma Royal Suite), com quartos acessíveis para mobilidade reduzida e quartos comunicantes ideais para famílias; hotel pet friendly. The Spa, no subsolo, com piscina interior de 13 metros, sete salas de tratamento e ginásio.
Universo gastronómico Atelier 7: Le Sept (fine dining de peixe e marisco), Brasserie Atelier 7 , The Café e Izakaya & Bar, sob a direção do chef Thomas Seifried.
Salão de baile e sete salas de reunião. Programa de arte com curadoria de Minda Dowling.
Dicas: Peça uma mesa no Atelier 7 ao início da tarde e deixe-se ficar sob a clarabóia, é o melhor ponto para entender o hotel; desça ao spa mesmo sem tratamento marcado, a piscina só por si justifica; repare na arte junto aos diferentes elevadores e dentro do próprio quarto; aproveite a zona circundante com calma a minutos da Catedral de Santo Estêvão.

Fotos: Flavors & Senses
Textos: Cíntia Oliveira
Versão Inglês
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