LIZ: A Pronúncia Moçambicana

Restaurante Liz, PortoA Rua de Mota Pinto não tem turistas. O Pinheiro Manso não é a Foz ou a Baixa, não há azulejos para fotografar nem fado a sair do amplificador, não tem esplanadas de portugalidade duvidosa nem o ritmo de uma cidade em férias. Há vizinhos, prédios e carros a circular com destino certo. Há uma porta discreta que se abre para uma pequena sala de dezoito lugares e um balcão como palco para a ação. É aqui que o Daniel Carvalheira decidiu colocar tudo o que tem em cima da mesa.

Conheço o Daniel há alguns anos. Cruzámo-nos em cozinhas alheias, ele sempre com aquele ar de jovem irreverente e descontraído de quem tem mais para oferecer do que aparenta. Esse momento chegou: onde outrora falhou o Manso, nasceu o Liz – homenagem à filha, Maria Liz, nascida na mesma altura do restaurante. Como se um deles já não custasse noites de sono suficientes, a escolha do nome obriga a colocar tudo em cima da mesa, ou a ter muita certeza daquilo que se está a fazer. Fui lá com a Cíntia e a Francisca num jantar de família, meses antes de escrever estas linhas – o meu habitual atraso nas publicações, que já deviam aceitar como estilo literário!

A Formação de um Sotaque

O percurso de Daniel Carvalheira lê-se como um mapa de influências repleto de curvas e viagens prolongadas. Nasceu em Moçambique, mudou-se para os Estados Unidos ainda criança, voltou a Portugal aos oito anos, mais propriamente para Vila do Conde, onde acabaria por perceber, como muitos da sua geração, que a gestão de empresas não seria para si. A secretária e a vida corporativa perderam mais um, não para o influencing ou o YouTube, mas sim para o calor de uma cozinha.

Tarte de tártaro de tomate
Tarte de tártaro de tomate

Mais um cozinheiro tardio que soube construir as suas bases em cozinhas de referência. No Pedro Lemos e no Yeatman aprendeu a gramática francesa, a profundidade dos molhos e a importância do sabor na alta cozinha, a beurre blanc e o jus que provaríamos nessa noite são reflexo direto dessa formação. Do Noma trouxe a obsessão pela fermentação e a mente aberta. Do Euskalduna, a liberdade criativa. Técnica, disciplina e criatividade que se tornaram ferramentas para construir um sotaque próprio. O que nenhuma destas cozinhas lhe ensinou foi o uso do caril e das especiarias, esse, trouxe de casa, e é esse sotaque moçambicano que separa o Liz de mais um restaurante de “cozinha contemporânea de autor” no Porto.

O Espaço

A equipa é deliberadamente pequena. André Cavaco, acumula o serviço de mesa com os vinhos e a apresentação dos pratos que o Daniel não traz ele próprio. E mais um ou dois elementos atrás do balcão. Não há brigada, não há sommelier com pin na lapela, há pessoas que fazem tudo!

O espaço é informal quanto baste, de tons neutros e escuros que fazem esquecer o bulício da cidade, limpo como um fine dining moderno mas descontraído, às vezes quase doméstico, com o próprio Daniel a sair da cozinha para apresentar pratos com a alegria no rosto de uma criança que mostra os trabalhos bem-sucedidos da escola. Sem encenação, parece-me simplesmente um homem contente com o que fez.

Na noite em que fomos, o restaurante tinha menos de meia casa. Sentimo-nos bem, mas gostava de ter sentido aquela energia comprimida dos bons bistrôs parisienses, os que nasceram da bistronomie dos anos 2000, onde o barulho é parte da experiência e a sala ferve enquanto acelera o ritmo da própria cozinha. O Liz precisa de corpos à mesa, precisa de agitação, e sim, a comida merece esse público!

Tartelete de beterraba, queijo de cabra e cominhos
Tartelete de beterraba, queijo de cabra e cominhos

Pronúncia Clara, Mão Segura

Passando à refeição, começámos pelos snacks, e o tártaro de tomate coração de boi com chalota, cebolinho e manjericão Thai sobre uma base crocante de panko estabeleceu logo o tom: sabor concentrado, o tomate rico e maduro, o manjericão a cortar a doçura com uma nota fresca, anisada e picante que não esperava tão cedo na refeição. Bom começo.

A tartelete de beterraba com queijo de cabra e óleo de cominhos é esteticamente irreprensível, poderia inclusivamente estar em qualquer restaurante estrelado, e eu não sou o maior fã de identidades repetidas. Cumpre a combinação clássica beterraba-chèvre sem a tornar previsível, com os cominhos a trazer um kick que empurra o snack para lá de um território 100% seguro. Competente, bonita, sem surpresas que mudem o rumo do jantar, mas isso não é uma falha.

Chamuça de cabidela
Chamuça de cabidela

A chamuça de cabidela com chutney e flor de borragem foi o melhor dos três. Aqui o Daniel mostra a pronúncia moçambicana que se esperava. A chamuça, que entrou em Moçambique pela porta da colonização portuguesa e da imigração do subcontinente indiano, recheada com cabidela é um gesto, não de tão falada apropriação cultural, mas sim de uma precisa tradução cultural. O picante, a acidez implícita da cabidela, o chutney a adoçar, tudo funcionava em unísono, incluindo a flor de borragem que nesta quantidade foi muito mais do que mero elemento decorativo.

O pão de massa-mãe da Bicho Pão, a padaria da Póvoa de Varzim que entretanto abriu no Porto, chega morno e fatiado: a deixar notar uma congelação prévia na textura, sem lhe toldar o sabor. É uma das padarias mais interessantes da cidade, e este é um pão para uma casa que se leva a sério e apoia os seus fornecedores, uma escolha que diz tanto sobre o Liz como a própria carta.

Cenoura com alperceO Território no Prato

A cenoura com alperce, raízes chegadas da Formiga Gloriosa, um pequeno produtor de agricultura regenerativa, foi um prato que me obrigou a rever alguns preconceitos. A cenoura não é o meu vegetal, nunca foi, dificilmente será. Mas aqui a doçura da cenoura assada, intensificada pelo jogo de cocções e pelo alperce a trazer uma nota de fruta e acidez, resultou num prato equilibrado que funciona bem sozinho, sem depender de proteína para ter presença no menu. Não vou dizer que passei a gostar de cenouras, mas passei a respeitar esta.

Cenouras com alperce
Cenouras com alperce

A gamba do Algarve com guanciale e caril é o prato-assinatura que todos os artigos citam, e faz parte da carta desde a abertura, e percebe-se porquê. É a receita e a memória da mãe do Daniel transcrita para a alta cozinha: as gambas cruas cobertas por um caril aveludado onde o picante é moldado pelo leite de coco, com o guanciale a trazer gordura e crocância. O molho é extraordinário, cremoso, com profundidade, sem pesar. A gamba crua era fresca e impecável, comia mais uma dúzia, e essa é a melhor crítica que posso fazer ao prato.

Gamba do Algarve, caril e guanciale
Gamba do Algarve, caril e guanciale

Daqueles pratos que justificam uma deslocação ao Pinheiro Manso num dia de chuva, e com dúvidas sobre o estacionamento. É o prato que prova que a memória familiar, quando filtrada por técnica séria, pode evoluir sem perder a temperatura emocional.

O atum com bimis e beurre blanc mudou o registo. Mantém um traço de harmonização estética com o restante menu, mas traz consigo cozinha europeia, clássica na estrutura e precisa na execução. O atum levemente selado no exterior, rosa no centro, os bimis chegam em duas versões: grelhados, com marcas de carvão e um travo amargo que lhes fica bem, e em puré, que suaviza o lado vegetal e dá corpo à composição. A beurre blanc muito bem executada a ligar tudo com a elegância de quem teve bons professores. Simples, guloso e correto.

Atum, beurre blanc e bimis
Atum, beurre blanc e bimis

Por fim, o entrecôte de vaca, alho-francês recheado com kimchi, puré de ervilhas e jus foi o prato mais “bistrô” da noite. Carne no ponto, jus limpo, daqueles que pedem o pão no final para limpar o prato, sem vergonha. Mas o golpe de génio estava ao lado, o alho-francês recheado com kimchi, a estrela que deu luz ao prato e transformou um convencional bife com jus em algo mais. O picante fermentado do kimchi dentro da doçura do alho-francês é uma ideia “pequena” que eleva o conjunto além dos sabores de conforto.

Espuma de citrinos
Espuma de citrinos

O Doce e o Ácido

A espuma de citrinos com toranja e óleo de manjericão faz o que lhe compete: limpa, refresca e prepara.

O petit gâteau de chocolate branco com gelado de vinagre e groselha em pó é a sobremesa que dividirá a sala ao meio, e Daniel sabe-o! O bolo de chocolate branco está bem feito, de interior líquido, mas sem twist, o que surpreende é o gelado de vinagre. A solo, é forte, quase agressivo, mas no corte com a doçura densa do chocolate branco, funciona como uma bofetada de luva branca – acorda, reorganiza e obriga a tomar um partido! Não será para toda a gente. A Francisca fez uma cara que dispensa legendas, mas o Daniel escolheu o caminho mais difícil, e isso merece respeito, mesmo quando a cara da minha filha sugere o contrário.

Petit gâteau de chocolate branco e gelado de vinagre
Petit gâteau de chocolate branco e gelado de vinagre

A melhor sobremesa foi o ananás dos Açores com queijo São Jorge. Elegante na estética, certeira no palato, com o ananás caramelizado a trazer doçura equilibrada por acidez e o creme de São Jorge a provar o velho ditado de que o que cresce junto fica bem junto e quando dois produtos insulares se encontram num prato bem trabalhado, não precisamos de mais nada.

Ananás dos Açores e queijo São Jorge
Ananás dos Açores e queijo São Jorge

O Copo

Fizemos o pairing sugerido pelo Luís: espumante Grande Reserva da Quinta do Rol para abrir, sempre correto e com boa acidez para acompanhar os snacks. Seguiu-se o Uivo Vinhas Velhas branco, boa textura na boca suficiente para não desaparecer ao lado do atum, elegância e acidez suficiente para não competir com a gamba. Fechámos com o Alento Reserva 2020, um branco alentejano de frescura invulgar para a região que acompanhou a carne sem comprometer.

Restaurante Liz, PortoUma Nota Final

Há uma nova geração de cozinheiros no Porto que merece mais olhos, mais garfos e mais tinta. O problema é que os olhos do público tendem a repousar sempre nos mesmos nomes, os que já têm estrela, os que já têm fama no Instagram ou os que os influenciadores posicionam no topo. O Daniel Carvalheira não está nessa corrida. Está na Rua de Mota Pinto, com uma pequena equipa e uma cozinha de pronúncia própria.

Provei, provavelmente, as propostas mais conservadoras do Liz, à carta, desde então o restaurante passou a trabalhar só com menu de degustação. Espero voltar para as molejas e a codorniz, para perceber até onde vai a audácia quando o chef solta as rédeas. Mas pelo que vi naquela noite, percebi que ali há cozinha a sério: a dose certa de contenção e coragem.

O Liz é um bistrô que quer ser alta cozinha sem a rigidez formal da mesma, o chamado casual fine dining. Quer beber da técnica, da precisão, da escolha de ingredientes, mas não quer rigidez, não quer tempos cronometrados, não quer uma sala chata e enfadonha que tanto pesa em certas salas estreladas do país.

O que gostava de ver? O lado das especiarias reforçado, com ousadia e precisão, propostas distintas de tudo o que encontramos na cidade, com o calor e o fogo moçambicano que lhe corre nas veias. E a casa cheia!

Isso virá. Com a mesma descontração de ver o Liz crescer à mesma velocidade que uma filha pequena!

Morada: Rua de Mota Pinto, 170, Porto
Telefone: 22 616 8024
Horário: Terça a sábado, 19h00–22h30
Preços: A partir de 65€ (sem vinhos)
Chef: Daniel Carvalheira
Imperdíveis: Chamuca de cabidela; gamba do Algarve com guanciale e caril; ananás dos Açores com queijo São Jorge.
Nos arredores: Fundação de Serralves, Parque da Cidade, Casa da Música, Padaria Madan

Fotos: Flavors & Senses
Textos: João Oliveira
Versão Inglês
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