O Regresso a um Lugar Onde Nunca Estive
Sempre que passava por Lisboa e atravessava o Parque Eduardo VII, olhava para aquele edifício no topo da avenida e pensava: “Um dia.”
Era uma promessa adiada durante anos, enquanto Lisboa se transformava à minha volta.
Desta vez, não passei por ele. Entrei.
E foi como atravessar não apenas um átrio de mármore, mas um limiar de tempo.
A Lisboa suspensa dos anos 50 – cidade de diplomatas, de espiões discretos, de conversas interrompidas em cafés, de dossiers que mudavam de mãos em corredores – encontrava a Lisboa contemporânea, luminosa e criativa, naquele hall onde a história parece cruzar-se.
O Ritz nasceu em 1959, símbolo do regime de Salazar que procurava projetar sofisticação internacional. Hoje, é um retrato preciso de uma Lisboa que se tornou adulta e cosmopolita: um clássico que aprendeu a mover-se ao ritmo dos tempos.
A Chegada
Há uma qualidade rara no Ritz que se sente logo ao atravessar as portas: a atmosfera é densa, habitada, como se o edifício guardasse décadas de conversas discretas.
O átrio tem aquela geometria perfeita entre grandiosidade e contenção. Mármore cor de creme que a luz da tarde enaltece, arranjos florais de escala arquitectónica, escadarias amplas, e ao fundo um terraço como moldura viva, o verde profundo do Parque Eduardo VII.
O check-in foi ágil e fluido. Aquela precisão sem pressa que caracteriza o serviço de lugares que nunca tiveram de provar nada a ninguém.
Reparei nos detalhes: a forma como as flores pontuam o espaço sem o dominar, a proporção exacta entre vazio e presença. O staff move-se com sorrisos e gestos contidos, como se conhecessem o espaço de memória. O tom de voz nunca sobe.
Três pequenos rituais à chegada:
Pastéis de nata ainda mornos, com aquele ruído subtil quando os dentes quebram o folhado estaladiço; um Porto, não como formalidade, mas como conversa de boas-vindas; e fruta fresca, como um delicado contraste de simplicidade.
Foi nesse momento que percebi: o Ritz Four Seasons Lisboa é um daqueles poucos hotéis em que tudo está onde deveria estar.
Lisboa e o Mundo
Sentei-me no Lounge Almada Negreiros enquanto o quarto era preparado e fiz o que qualquer viajante atento faria: observei.
De manhã, reuniões discretas. Homens e mulheres de fato escuro, pastas finas, conversas em inglês, francês, árabe.
À tarde, famílias multigeracionais: avós elegantes que viajaram o mundo, netos adolescentes que descobrem o luxo, o apertar de mãos de quem concluiu um bom negócio.
Ao fim do dia, a luz oblíqua entra pelos vitrais e a cidade abranda. O Ritz abranda com ela.
Nos anos 60 e 70, este lobby era ponto de encontro entre diplomatas que ajustavam dossiers, artistas e escritores que observavam conversas alheias.
Hoje, o fluxo mudou mas a energia é a mesma: empresários de Silicon Valley, famílias do Médio Oriente, criativos europeus que encontraram em Lisboa uma segunda casa.
O Ritz vê Lisboa.
E Lisboa vê-se no Ritz.
Uma Câmara Sobre Lisboa
O nosso Deluxe com vista para o Parque ainda cumpre a pretensão do projecto original: ser uma câmara onde Lisboa entra pela varanda antes de entrarmos nós.
A luz mudava como personagem ao longo do dia: cristalina e branca às 9h, quente e oblíqua às 18h, quase cinematográfica quando tocava as copas das árvores do parque Eduardo VII.
Reparei nos detalhes que separam decoração de design pensado.
O veludo azul-petróleo das cadeiras guarda o calor da mão quando nos sentamos.
A cabeceira em pele, a madeira com a dose certa de brilho intemporal.
A espessura das cortinas cria isolamento acústico absoluto quando fechadas.
Não se “passa” tempo neste quarto. Habita-se.
À noite, deitada, ouvia a respiração lenta de Lisboa lá fora. E percebi porque tantos diplomatas, escritores e exilados escolheram o Ritz ao longo das décadas: não era apenas segurança. Era conforto.

A Coleção de Arte
Poucos hotéis no mundo têm uma coleção de arte com a densidade cultural do Ritz. E descobri isto por acaso, não numa visita guiada, mas deambulando pelos corredores a caminho do jantar.
Parei diante de uma tapeçaria de Almada Negreiros. Centauros geometricamente desenhados para o espaço onde habitavam.
Mais à frente, Carlos Botelho numa interpretação própria de Lisboa.
Maria Helena Vieira da Silva com aqueles labirintos oníricos que pedem leitura lenta, que fazem o olhar perder-se.
As esculturas de Lagoa Henriques suspensas no restaurante Varanda – trazendo a força do mar a essa sala icónica.
Não há placas didáticas, não há sinalizações turísticas. A arte está ali como parte da arquitetura, como se sempre tivesse estado.
Num elevador, ouvi uma conversa entre dois hóspedes americanos:
“We come back every year just to see the collection again.”
Um deles apontava para uma foto da coluna de Querubim Lapa como quem aponta um velho amigo.
A arte aqui não é decoração.
É identidade.
É a forma como o hotel conta a história de Portugal do século XX.
O Varanda e o CURA: Dois Ritmos da Mesma Cidade
O Varanda é a Lisboa clássica, a Lisboa que olhou para França e se mesclou.
Um abrigo português que sabe receber sem pressas, que não precisa de vanguardas para impressionar ou perdurar no tempo.
Tomei aqui o pequeno-almoço, sentada junto à janela que enquadra o terraço com o Parque Eduardo VII. Omelete leve e ainda cremosa, ovos royale de assinatura, com a gema a escorrer pelo prato de forma cinematográfica.
O Chef Executivo Carlos Cardoso, que regressou ao Ritz em 2025, comanda esta sala com a naturalidade de quem voltou a casa.
Não é mudança, é continuidade.
É a arte de receber como se Lisboa ainda fosse aquela cidade reservada dos anos 50, mas iluminada pela luz de hoje – e por isso também se serve ali o mais reconhecido brunch da cidade.
Se o Varanda é a alma clássica, o estrelado CURA é o contraponto contemporâneo, a prova de que o hotel cresce ao ritmo de Lisboa.
O Chef Rodolfo Lavrador, que assumiu a cozinha em 2025, trabalha a gastronomia portuguesa com uma visão própria, feita de intenção e reflexão.
Um caminho certeiro numa escolha arriscada da direção.
Os menus de degustação são como viagens pela sazonalidade e pelas origens, sempre com ética sustentável.
Marca de uma nova era lisboeta: cosmopolita, inventiva, elegante e plenamente contemporânea à mesa.

SPA E Piscinas
O spa do Ritz é um daqueles espaços que não se fotografam bem porque o essencial é atmosfera, não imagem.
Luz bem refletida, texturas — pedra, madeira, linho — que convidam ao toque, uma calma que não precisa de ser anunciada.
A piscina exterior revelou-se uma surpresa.
Esperava algo mais monumental, mas é discreta, quase privada.
A interior segue o mesmo ritmo; também ali a arte marca presença como parte envolvente da experiência.
Observei: a maior parte dos hóspedes não vem nadar.
Vem sentar-se, ler, deixar o tempo desacelerar sozinho.
Lisboa Vista de Cima
O último piso do Ritz guarda um dos segredos mais raros de Lisboa: uma pista de corrida que circunda o edifício com vista total sobre a cidade.
Não corro, mas subi ao terraço ao final da manhã, quando a luz abraçava a cidade. E percebi: mesmo quem não corre quer estar ali.
Lisboa aos nossos pés, o Tejo a brilhar ao longe como fita prateada, o Parque Eduardo VII estendido como o tapete verde da cidade.
Vi três pessoas a correr devagar: não estavam ali para competir ou treinar, era como se corressem apenas para observar Lisboa de cima.
É um lugar que transforma a perceção do tempo.
Um ponto onde nos tornamos pequenos e a cidade maior do que nós.

Entre o Ontem e o Amanhã de Lisboa
O Four Seasons Hotel Ritz Lisboa é o espelho da reinvenção de uma cidade.
Um clássico que não envelheceu porque aprendeu a mover-se.
Um hotel que guarda memórias de diplomacia, ditadura e aristocracia, mas que abraça a Lisboa criativa, plural e contemporânea.
É o lugar onde a cidade antiga e a cidade nova se encontram.
Onde história, arte, gastronomia e serviço se equilibram num gesto contínuo.
Quando saí, virei-me uma última vez para o átrio – como quem se despede de um lugar onde já esteve antes, mesmo que essa fosse a primeira vez.
Vivendo entre hotéis, procuramos mais do que conforto e design.
Queremos algo com raiz, sofisticado, humano e capaz de permanecer na memória.
O Ritz é um desses espaços.
O Ritz não aterrou em Lisboa.
Nasceu e cresce com ela.
E é por isso que continua a ser o seu espelho mais preciso.
Morada: Rua Rodrigo da Fonseca, 88 – 1099-039 Lisboa
Contacto: +351 21 381 14 00
Preço: Preços a partir de 750€
Património: Edifício modernista histórico (1959), projeto do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, possui uma das maiores coleções privadas de arte contemporânea portuguesa (Almada Negreiros, Vieira da Silva, Carlos Botelho, Lagoa Henriques)
Facilidades: SPA (1500 m²), Piscinas, Pista de Corrida no Terraço (11º piso), Ginásio, Restaurantes, Ritz Bar, Lounge Almada Negreiros, Eventos, Concierge, Barbeiro, Lojas
















